Alterações Climáticas e a Ascensão da Criação de Camelos
Numa reviravolta que desafia as práticas agrícolas tradicionais, a criação de camelos está a ganhar terreno como uma alternativa sustentável à produção de leite. Com as alterações climáticas a remodelarem a paisagem agrícola, os camelos emergem como candidatos ideais para enfrentar os desafios do futuro. Estes animais, que evoluíram para suportar extremos climáticos, são capazes de sobreviver com pouca água e vegetação, além de produzirem menos metano do que vacas e outros ruminantes.
Contudo, a resiliência dos camelos às alterações climáticas também os torna alvos atraentes para a agricultura intensiva. Grandes interesses empresariais veem na criação de camelos uma oportunidade de crescimento capitalista que alia soluções climáticas à produção de leite. No Médio Oriente, já existem fazendas leiteiras de camelos com milhares de animais sendo ordenhados por máquinas, um modelo que espelha o desenvolvimento da pecuária bovina, ovina e suína.
A demanda crescente por leite de camelo, conhecido por ser rico em vitamina C e baixo em gordura, impulsiona a criação de raças com maior produção leiteira. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma colaboração inusitada entre Amish e sauditas exemplifica essa tendência. No entanto, especialistas temem que o avanço da criação industrializada possa resultar na perda de conhecimentos tradicionais e no comprometimento do património cultural intangível associado aos camelos.
Apesar dos desafios, como a agressividade dos machos na época de acasalamento e o longo período de gestação das fêmeas, a indústria leiteira de camelos está em expansão. Estimativas apontam para um valor de mercado global que pode atingir entre 2 a 13 bilhões de dólares até o final da década. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Omã já investem pesadamente no setor, com fazendas leiteiras e unidades de engorda para produção de carne.
Enquanto isso, pastores nômades de camelos, com quem trabalhamos na Mongólia rural e nos desertos da Arábia, expressam preocupação com a transição para mega-laticínios. Eles rejeitam o modelo extrativista de produção animal e defendem práticas sustentáveis que respeitem o meio ambiente e a cultura.
Os camelos têm sido parceiros históricos dos humanos, facilitando o comércio à longa distância e sustentando meios de subsistência familiares. Hoje, além de estamparem brochuras turísticas, enfrentam um novo desafio: adaptar-se ao cenário emergente da agricultura industrializada sem perder sua essência nômade.